Entrevistas com Félix Guattari (legendas em português)
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Parte II
Parte III
Parte IV
Parte V
Parte VI
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Parte VI
8 de agosto de 2011
3 de maio de 2011
Filosofia prática
Uma das noções norteadoras do pensamento político de Deleuze e Guattari é a de que uma filosofia política que se preze, hoje, deve estar centrada na análise do capitalismo e de seus desenvolvimentos. O interesse por Marx, por parte dos autores de O anti-Édipo e Mil platôs, é a análise do capitalismo como sistema imanente que se reproduz sempre em escala crescente, incorporando inclusive as forças produtivas que se constituem, originalmente, à sua margem e, no mais das vezes, em resistência a ele. Se essa análise, contudo, desloca a si mesma em relação ao debate marxista, é porque soube criar novos conceitos para pensar a singularidade da experiência política da Europa pós-68.
Entre eles, o conceito de linha de fuga (ao invés de contradição) para explicitar os movimentos constitutivos de cada sociedade para além dos regimes jurídicos e institucionais que visam a uniformização e o regramento da vida social. Além disso, o conceito de classe dá lugar ao de minoria, que não se define pelo número, pois ela pode ser mais numerosa que uma maioria. A maioria se apresenta como um modelo que procura se impor como norma, enquanto a minoria é antes um processo que uma adequação ao mesmo (modelo); a minoria é um devir-outro, uma ruptura com o mesmo e uma abertura para o novo enquanto processo de criação.
Nesse sentido, pode-se perguntar se o Brasil contemporâneo não vive um processo de esfacelamento dos modelos majoritários (o homem branco morador dos bairros não-periféricos das grandes cidades do Sul-Sudeste) e por um intenso e múltiplo devir-minoritário: devir-negro, devir-mestiço, devir-mulher, devir-homossexual, devir-nordestino, devir-índio, devir-periferia, que vale para cada brasileiro que se vê arrastado por esses caminhos de criação, que é também o caminho de criação de si como outro.
O debate político que se propõe se define a partir de uma filosofia prática e passa pela produção de sentido, antes que pela decifração do real. Decifrar o real é encontrar o sentido como dado a priori que já comporta em si um esquema de valores estabelecidos que justifica o real tal como ele é, levando a esquivar-se diante da miséria, resignar-se diante do intolerável. O que se propõe é um pensamento que, na apreensão mesma do intolerável, responda enfaticamente através da produção de novos sentidos e valores, numa prática que renuncie a toda política de compromisso com os valores vigentes que resultam na imensa fabricação da miséria humana, material e espiritual. (...) Assim, o pensamento se afirma enquanto prática imanente decorrente das forças da experiência vivida em sua singularidade: não há filosofia que não seja filosofia política. (Sandro Kobol Fornazari)
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